25 de October de 2018 plenocao

Ansiedade de separação em cães - O que é e como tratar

A ansiedade de separação é uma tendência natural que está presente em todos os animais, inclusive o ser humano (Bowlby – 1989). Bebês em torno de 6 a 8 meses de idade desenvolvem ansiedade de separação da mãe.

É uma fase do desenvolvimento infantil e é necessário que a mãe crie uma alternância entre sua presença e sua ausência para que o bebê aprenda a lidar com a angústia causada pela separação. A normalidade está justamente na capacidade do indivíduo de elaborar a separação psiquicamente, ou seja, a capacidade de lidar com a separação de maneira natural.

O comportamento de apego é um tipo de vínculo emocional onde a sensação de segurança e conforto está inseparavelmente ligada à relação, ou seja, só é possível sentir-se seguro e confortável na presença do outro. À partir do nascimento, o filhote se apega à mãe e posteriormente cria uma ligação com os irmãos da ninhada. Com o início do período de socialização, aos 2 meses de idade, o filhote criará um vínculo com outros cães adultos. Nessa fase, é natural que o cão comece a se afastar um pouco da mãe para explorar o ambiente e interagir com novos cães e até animais de outras espécies.

O período de socialização (2 a 4 meses de idade) determina o tipo de relação social que um animal estabelecerá. O vínculo se dá pela relação de confiança e essa relação é o fundamento do laço entre o proprietário e o animal de estimação. Porém, quando um cão fica totalmente apegado ao proprietário poderá desenvolver alterações comportamentais associadas à separação.

A Síndrome da Ansiedade de Separação ocorre quando o individuo não é capaz de lidar com a ausência de uma ou mais pessoas de seu convívio. É um problema emocional sério, onde o cão entra em pânico quando o tutor sai (Patricia McConnell). Pode ser percebida pelo conjunto de comportamentos associados a reações fisiológicas das quais o indivíduo não tem controle e que se apresentam quando o cão é deixado sozinho. Esse tipo de comportamento nada mais é do que a resposta ao estresse excessivo pela separação da(s) pessoa(s) com quem o animal está apegado. Cães com ansiedade de separação são muitas vezes bem treinados e obedientes quando estão na companhia do proprietário.

Os proprietários costumam referir-se a estes animais como desobedientes, chateados ou vingativos e acabam punindo seus cães ao retornarem para casa, o que contribui para a manutenção ou aumento da frequência dos comportamentos indesejados, pois já é comprovado que as punições aumentam a ansiedade.

SINTOMAS

Os sintomas normalmente começam a surgir a partir de alguns gatilhos. Os gatilhos são as situações ou os comportamentos associados à saída do tutor, como por exemplo tomar banho, vestir a roupa, calçar os sapatos, entre outros. Os cães conseguem interpretar e identificar muito bem essas situações.

Alguns comportamentos podem ser observados ao longo dos gatilhos, como arfar, babar, choramingar, tremer, andar de um lado para o outro, entre outros. É importante ressaltar que esses comportamentos por si só não significam que o cão sofre de ansiedade de separação. Um fator determinante é a reação fisiológica associada ao comportamento.

Após a saída do tutor, os comportamentos mais comuns são: necessidades fisiológicas em locais inapropriados, destruição de móveis ou objetos, falta de apetite, lambeduras, latidos excessivos, uivos, pânico. Muitas vezes o cão se coloca em risco.

Os sintomas de forma moderada são muito comuns e precisam de uma intervenção comportamental atuando inclusive na prevenção. O prognóstico nesses casos é favorável. Já a ansiedade de separação grave é rara, o prognóstico é reservado e normalmente o tratamento consiste na intervenção medicamentosa além de um treinamento comportamental.

A maioria dos cães afetados fica extremamente excitado quando o proprietário retorna, saudando-o mais efusivamente do que o normal e geralmente torna-se extremamente ativo.

Somente o levantamento do histórico comportamental do cão e o contexto geral em que estes comportamentos ocorrem podem determinar um diagnóstico de Síndrome de Ansiedade de Separação.

CAUSAS

Eventos traumáticos na vida de um cão jovem podem aumentar a probabilidade do desenvolvimento de ansiedade de separação. A rotina é muito importante para que se sintam seguros e mudanças bruscas na rotina podem ser um fator importante. Algumas situações podem aumentar a predisposição, citaremos apenas algumas delas como exemplo:

  • Separação precoce da mãe e privação prematura de laços com a ninhada (filhote de cães mantidos em lojas ou abrigos para animais);
  • Mudança súbita de ambiente (casa nova, ficar em canil);
  • Mudança no estilo de vida do proprietário, resultando em um súbito término no contato constante com o animal, uma ausência de longo prazo ou permanente de um membro da família (divórcio, morte, crianças que crescem e deixam a casa, volta para a escola ou trabalho, férias que terminam) ou a adição de um novo membro na família (bebê recém-nascido, novo relacionamento social ou novo animal de estimação);
  • O resultado de uma estadia prolongada ou traumática na casa de um parente ou amigo, em um canil ou hotel.
  • Evento traumático ocorrido durante a ausência do proprietário (explosões, tempestade, assaltos violentos).
  • Cães de rua, recolhidos em canis de adoção.

Os cães com predisposição à ansiedade de separação são ansiosos e hiperativos. Seguem o proprietário por todo lado, não costumam ficar sozinhos em um cômodo da casa, pulam muito no tutor e geralmente são inquietos (andam ou correm constantemente). É preciso uma atenção especial a estes cães, principalmente em situações como as citadas acima.

INTERVENÇÃO

Uma vez iniciado o processo de intervenção comportamental, o tutor deve se comprometer a seguir as orientações do comportamentalista, evitando qualquer falha de procedimento. O cão não poderá passar por episódios de ansiedade de separação, portanto não poderá ficar sozinho durante o processo. Se o tutor falhar, o comportamento pode retornar e até se intensificar, tornando-se ainda mais difícil de ser extinto ou modificado. Portanto, é interessante que o tutor se programe para fazer o treino durante as férias, ou que alguém possa ficar com cão na ausência do proprietário (desde que o cão não sofra de ansiedade de separação na presença dessa pessoa).

O sucesso do manejo da ansiedade de separação consiste em ensinar o cão a se sentir seguro e confortável na ausência do tutor. Saber lidar com falta do proprietário é muito importante para o bem-estar do cão.

As técnicas para o tratamento de ansiedade de separação incluem: identificação e dessensibilização de todos os gatilhos, modificação dos comportamentos do tutor em relação ao cão (não punir, evitar festas e agitação nas saídas e principalmente nas chegadas em casa), implementação de rotina de atividade física, cognitiva e social. Em casos mais graves, são necessários medicamentos ansiolíticos que devem ser prescritos por um veterinário comportamentalista que avaliará o estado geral do animal, verificando a real necessidade de intervenção medicamentosa.

  • Identificação dos gatilhos – perceber o exato momento que o cão começa a apresentar comportamentos ansiosos. Por exemplo, quando o tutor coloca a meia, o cão começa a arfar; ao colocar os sapatos, o cão treme ou baba.
  • Dessensibilização dos gatilhos – associar o gatilho (calçar a meia) a uma situação diferente da que o cão está habituado. Por exemplo, calçar a meia não significa mais que o tutor vai calçar os sapatos e sair, mas significa brincar de bolinha ou ganhar um brinquedo recheado. Lembre-se, o cão não pode ficar sozinho em hipótese alguma!
  • Modificação dos comportamentos do tutor em relação ao cão – O proprietário deve evitar a interação enquanto o animal apresenta comportamentos ansiosos e só deve premiá-lo quando estiver calmo e tranquilo. Nada de festas e agitação principalmente ao chegar em casa. As punições devem ser evitadas ao máximo, pois aumentam a ansiedade.
  • Implementação de atividades física, cognitiva e social na rotina do cão. Essas atividades são de extrema importância, pois asseguram que o cão esteja com as necessidades básicas supridas, diminuindo assim a ansiedade generalizada e aumentando o bem-estar.

No próximo post falaremos sobre a prevenção da síndrome da ansiedade de separação.

Cintia Magrini
Graduanda em Psicologia, comportamentalista e educadora de cães.

Referências:
LANTZMAN, M. Ansiedade de separação em cães. Disponível em: www.pet.vet.br/ansiedade.html. Acesso em: 20 nov. 2014.

OGATA, L. Ansiedade de separação em cães. Disponível em www.tudodecaotransforma.com.br. Acesso em: 23 mai. 2018.

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